Estou tão puto que decidi escrever.
Estou tão puto que fui fazer um post no meu Facebook sobre a ridícula situação em que o Brasil se encontra, preso entre dois candidatos pífios.
E aparentemente, minha verborragia é diretamente proporcional a minha raiva.
Assim, o pequeno "rant" que eu pretendia fazer sobre nossos queridos candidatos ficou grande demais para ser postado no Facebook.
Assim, homenageando a minha revolta, criei este blog somente para poder estravazar minha raiva.
Abaixo segue minha catarse. Caso alguém queira corrigir os prováveis erros de português e concordância (este texto é uma catarse, não um tratado, não vejo graça em revisá-lo), sinta-se a vontade para me chamar de burro.
EDIÇÃO: texto devidamente corrigido. A permissão para me chamar de burro foi revogada.
Acho interessante ver tantos comentários, reportagens e "denúncias" favorecendo um ou outro candidato.
Tive o prazer de estar fora do Brasil durante o primeiro turno, o que serviu como uma desculpa razoável para não participar do processo eleitoral, talvez o mais deprimente da história recente da democracia brasileira. Infelizmente estarei por aqui para o segundo turno, então teria, em tese, que decidir em quem votar.
A princípio, devido à minha tendência - a qual declaro com certa dose de orgulho - "anti-Lulista" - pretendia votar no Serra. Aliás, o mais correto seria dizer, pretendia votar contra o "Lula de saias". Aliás, só a imagem de um Lula de saias seria o suficiente para merecer um voto contra.
No entanto, como 50% dos meus amigos concordarão, o Serra não é exatamente um Churchill. E dizer que ele "não é exatamente um Churchill", é o mesmo que dizer que o sr. George W. Bush não é nenhum Ozymandias.
A clássica questão de aborto/união homoafetiva, temas que aparentemente andam de mãos dadas (embora, para quem possa ler nas entrelinhas, não consigo imaginar dois assuntos mais mutuamente exclusivos), foi a gota d'água para mim, no entanto.
Duas perguntas surgem quando comento sobre ambos os temas, por mais distintos que a princípio sejam.
A primeira é: por que isso ainda são uma polêmica?
E a segunda: como é que assuntos desta importância se tornaram discussãozinha eleitoreira barata?
Em relação à primeira pergunta, alguém poderia me dizer aonde, na legislação brasileira, há uma previsão da diminuição dos impostos para homossexuais? Porque, afinal de contas, se eles têm menos direitos, deveriam ter menos deveres, não? E é irrisório o argumento de que eles têm os mesmos direitos, pois afinal todos têm o direito de realizar união cívil e contratar casamento com pessoas de sexos diferentes. É como o homem que fala: "Ok, amor, temos o mesmo direito. Ambos podemos ficar com quantas mulheres quisermos." Um direito igual para todos, apesar de suas diferenças não é bom o bastante.
A Constituição brasileira não defende a igualdade, mas a eqüidade, que pode ser resumida simplificadamente como "direitos iguais para os iguais, direitos diferentes para os diferentes". Ora, então por que pessoas com um opção sexual "diferente" devem ser tratadas desta suposta "mesma forma" que indivíduos heterossexuais?
A legalização da união homoafetiva não dá um novo direito aos homossexuais. Meramente reconhece o direito de qualquer cidadão a formar família. Se trata meramente do reconhecimento de uma situação fática, o que está na descrição de trabalho de qualquer legislador de meia tigela.
Da mesma forma se deve observar a questão do aborto. Ninguém é "a favor" do aborto. Ninguém acha "legal" abortar. Não creio que haja alguma mulher no mundo que acorde pensando "uau, hoje é terça-feira, dia de abortar, que alegria!".
O aborto é uma realidade triste, mas é uma realidade. Infelizmente há momentos em que os pais, ou mais especificamente a mãe, em cima de quem o peso do aborto recai, não têm condições para cuidar de uma criança. E é seu direito não serem obrigados a arcar com uma opção que os afetará por toda a vida!
Quem são estas entidades tão poderosas, tão magnânimas, que podem decidir em que momento a vida começa, qual seu valor, para invadir a intimidade de uma família e lhes dizer que sim, eles têm que ter um filho, sim, eles terão que cuidar desta criança por toda a sua vida, mas não, eles não vão ajudar, porque, afinal de contas, o filho não é deles? Eles que usassem camisinha.
Aliás, não, eles não podem usar camisinha, não é? Porque, afinal, usar camisinha é pecado. Porque, afinal, o sexo deve ser só para procriação. Porque foi Deus qu... Aaahhh... Agora tudo se explica.
Trocadilhos à parte, é evidente que ambos os temas são tratados sempre em conjunto por se tratarem de sexualidade, e da eterna batalha do bom senso contra a moralidade cega.
De um lado, o bom senso indica que sexo é uma coisa muito boa (como a maioria há de concordar). Assim, queremos fazer sexo. Aliás, quanto mais melhor! Evidentemente, acidentes acontecem. Tais acidentes, fora DSTs, geralmente se apresentam na forma de uma crescente dilatação no ventre da mulher, resultando em nove meses, em um bichinho barulhento, que bebe leite e que eventualmente pode vir a virar um político ou jogador de futebol. Outro nome para tal acidente é "bebê".
Voltamos, ciclicamente, ao problema de que nem todos podem ou querem ter um bebê. E aí adentramos no fato de que há certos grupos que acreditam que esta não é uma escolha do indivíduo.
Aparentemente, há dois mil anos atrás, um certo indivíduo barbudo, dado a grandes festas com peixes e vinhos e com fortes idéias socialistas, que os especialistas discutem se foi à Índia ou era filho de Deus, foi crucificado. Alguns (aproximadamente 300) anos depois, foi fundada uma Igreja, baseada numa mistura de alguns ensinamentos deste senhor com os interesses da hegemonia (leia-se "pessoas com espadas") da época. Aparentemente, mais alguns (aproximadamente 700) anos depois, esta Igreja decidiu, com medo de que seus sacerdotes começassem a deixar muitos herdeiros por aí, que sexo era um coisa muito ruim.
Notem a ironia da situação. Sexo se tornou uma coisa ruim justamente porque levava a criação destes tais "bebês".
A questão da união homoafetiva esbarra no mesmo entrave. Aparentemente Deus, em sua infinita sabedoria, criou pessoas que sentem desejo sexual por outras do mesmo sexo. A Igreja, em sua muito mais infinita sabedoria, decidiu que Deus estava errado e que todos estes indivíduos eram pecadores.
Tal tendência foi seguida pelas novas Igrejas, baseadas nos mesmos ensinamentos, que hoje em dia disputam o mercado, digo, rebanho brasileiro.
E assim voltamos aos nossos políticos. Aparentemente o senhor José Serra percebeu que suas chances são notadamente baixas nesta eleição. Assim, fez a única coisa que poderia garantir que ele perdesse meu voto. Se aliou à Igreja.
Apesar de minha absoluta descrença em qualquer fé, ou sistema religioso, defendo totalmente o direito de todos a terem suas próprias convicções. O que não posso aceitar, no entanto, é a união entre Igreja (ou igrejas) e Estado. Poucas situações são capazes de causar tantos danos aos indivíduos ou à sociedade em si quanto a mistura destes dois entes.
Isto se dá porque toda religião é um sistema moral, e o Estado deve ser, como previamente mencionado, amoral. Não imoral. Amoral. A moral é, por princípio, parcial. E, no momento em que uma entidade moral (e logo, parcial), detém o poder, ela tem o infeliz hábito de suprimir, ou mesmo massacrar, grupos com idéias divergentes. Quando tal entidade tem como agente legitimizador algo tão poderoso quanto Deus, seus membros se sentem justificados em cometer as maiores atrocidades.
O Estado deve ser, portanto, amoral. Para tanto, precisa ser laico. É claro que o senhor José Serra não se preocupou com isso. Afinal de contas, que diferença faz ele ser o segundo colocado mais moral de todos os tempos?
Assim, por reflexo, por mais desgosto que isto me trouxesse, eu deveria votar na sra. Dilma "Lulete" Roussef. E aí me deparo com a capa do Globo de 14/10/10. Afinal, se o sr. Serra não quer ser o segundo colocado mais moral do mundo, quem é a sra. Roussef para ir contra a tendência?
No caso dela, a situação é ainda mais dolorosa para minha pessoa. Afinal, um dos únicos momentos em que me vi admirando o sr. Luis Inácio foi quando o mesmo admitiu ser "a favor" do aborto. O que gerou uma situação curiosa. A Dilma é um clone do Lula, menos em pontos em que isso seria positivo.
Assim, entre a direitista cruz e a esquerdista espada, cometerei seppuku democrático e votarei nulo pela primeira vez.